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25.6.10

[JOSÉ SARAMAGO, CARTA PARA JOSEFA, MINHA AVÓ]


CARTA PARA JOSEFA, MINHA AVÓ
Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha.
Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, umas coisas que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos – e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti – e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas – e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!”.
É isto que eu não entendo – mas a culpa não é tua.

10.11.09

[ÁLVARO CUNHAL . 10 DE NOVEMBRO 1913 - 13 DE JUNHO DE 2005]

“De facto, na PIDE foram-me feitas variados perguntas relacionadas (umas directamente, outras indirectamente) com a minha actividade política. A todas elas me recusei a responder, com o fundamento — que mantenho — de que um membro do Partido Comunista Português, força política de vanguarda na luta pela Democracia a Independência Nacional e uma Paz Duradoura, não tem quaisquer declarações a fazer à polícia política, instrumento da repressão violenta exercida contra os trabalhadores e contra os portugueses democratas, patriotas e partidários da paz. Vamos ser julgados e certamente condenados. Para nossa alegria basta saber que o nosso povo pensa que se alguém deve ser julgado e condenado por agir contra os interesses do povo e do país, por querer arrastar Portugal a uma guerra criminosa, por utilizar meios inconstitucionais e ilegais, por empregar o terrorismo, esse alguém não somos nós, comunistas. O nosso povo pensa que se alguém deve ser julgado por tais crimes, então que se sentem os fascistas no banco dos réus, então que se sentem no banco dos réus os actuais governantes do Nação e o seu chefe Salazar.”
ÁLVARO CUNHAL

Na freguesia onde nasci, nasceu Álvaro Barreirinhas CunhaL, filho de Avelino Cunhal e Mercedes Cunhal, freguesia da Sé Nova em Coimbra, no dia 10 de Novembro de 1913.
Conhecido pelas célebres... "Se houve decisão correcta na minha vida, foi ter entrado, aos 17 anos, no Partido Comunista", "Hei-de morrer comunista!" entre tantas outras.

Breve biografia
"1913: Nasce a 10 de Novembro, em Coimbra, filho de Avelino Cunhal e Mercedes Ferreira Barreirinhas. – 1931: Com 17 anos, Álvaro Cunhal adere ao PCP, através da Federação das Juventudes Comunistas. – 1932: Participa na direcção da Associação Académica de Lisboa. – 1934: É eleito para o Senado Universitário. – 1935: Eleito para o Secretariado da Federação das Juventudes Comunistas. – 1937: Cunhal é preso pela primeira vez, a 20 de Julho. – 1939: É colocado a cumprir serviço militar na Companhia Disciplinar de Penamacor. – 1940: É de novo preso. – 1942: Cunhal adopta o pseudónimo de "Duarte". – 1949: Prisão de Álvaro Cunhal numa casa clandestina no Luso. – 1950: Cunhal julgado e condenado faz do processo uma afirmação política do comunismo. – 1953: É transferido da Penitenciária de Lisboa para Peniche após ter estado doente. – 1960: Cunhal foge de Peniche a 3 de Janeiro. Em Dezembro, nasce a sua filha Ana. – 1961: Entre Fevereiro e Maio, Cunhal vive no Porto, junto ao Mercado do Bom Sucesso, com a mulher Isaura e a filha Ana. Eleito pelo Comité Central secretário-geral do PCP, passa a viver no estrangeiro. – 1974: Revolução do 25 de Abril. Legalização do PCP. No dia 30 de Abril, Álvaro Cunhal regressa a Lisboa. É ministro sem pasta nos Governos Provisórios até 1975. – 1975: Nas eleições para a Assembleia Constituinte, a 25 de Abril, Cunhal encabeça a lista do círculo de Lisboa. – 1982: Torna-se membro do Conselho de Estado. – 1985: Em Agosto, Cunhal publica O Partido com Paredes de Vidro. – 1989: Álvaro Cunhal vai à URSS para ser operado a um aneurisma da aorta. Cunhal é recebido em Moscovo por Mikhail Gorbatchov e recebe a ordem Lenine. – 1992: No XIV Congresso do PCP, Carlos Carvalhas é eleito secretário-geral, Álvaro Cunhal passa a presidente do Conselho Nacional do PCP. – 1994: No Hotel Altis lança o romance Estrela de Seis Pontas e assume que é Manuel Tiago, pseudónimo literário com que assinou na clandestinidade o romance Até Amanhã, Camaradas e o conto Cinco Dias, Cinco Noites. – 1996: XV Congresso do PCP. O Conselho Nacional é extinto. Cunhal passa a ter assento apenas no Comité Central. – 1997: Cunhal lança um novo romance, A Casa de Eulália baseada na sua experiência na Guerra Civil de Espanha. – 2000: Em Setembro, Cunhal é operado ao glaucoma, a operação corre mal e perde a visão do olho direito. A 8,9 e 10 de Dezembro, o XVI Congresso realiza-se em Lisboa e, pela primeira vez desde o 25 de Abril, Cunhal está ausente de uma reunião magna por motivos de saúde. – 2001: Cunhal reaparece em público para votar nas eleições presidenciais de 14 de Janeiro. Depois de votar, declara aos jornalistas: "Estou nitidamente melhor." – 2004: Nas eleições europeias, a 13 de Junho, Álvaro Cunhal, pela primeira vez em 30 anos de democracia, não vota. No XVII Congresso do PCP Jerónimo de Sousa é eleito secretário-geral. – 2005: O Comité Central noticia a morte de Álvaro Cunhal, às 5h e 54, do dia 13 de Junho."





25.9.09

[O TRIUNFO DOS ANIMAIS . UMA FÁBULA DE ABRIL]


“Quatro patas bom, duas pernas mau”, George Orwell
Era uma vez uma quinta habitada pelos diferentes animais que existem numa quinta. Num passado remoto eclodira aí uma revolução que devolveu a todos os animais a democracia, isto é, a liberdade para se exprimirem e para escolherem aqueles que deviam representá-los e orientá-los na gestão colectiva da quinta. Muito depois desses tempos gloriosos e míticos, a quinta passou a ser administrada por um regedor que foi eleito pela maioria dos seus residentes. Antes de assumir tão grandes responsabilidades, o dito regedor comprometeu-se a trabalhar pelo progresso da quinta e pelo bem-estar de todos aqueles que aí viviam. Mas, após a eleição, esqueceu-se das obrigações e promessas então celebradas e foi transformando, paulatinamente, a quinta que era de todos numa reserva sua.
O tempo foi passando, a maioria das quintas vizinhas prosperando e a reserva do regedor definhando. A falta de trabalho aumentou produzindo um desventurado cortejo de calamidades sociais; as infra-estruturas caducaram; muitos dos melhores ou mais jovens obreiros, não vislumbrando perspectivas de futuro no território da reserva, migraram para paragens mais promissoras; as relações entre o regedor e os restantes animais da reserva deterioraram-se.
Indiferentes aos deprimentes sinais do tempo, o regedor e os seus mais fiéis servidores, irremediavelmente extasiados pelas fragrâncias inspiradas na casa grande da reserva, interiorizaram e publicitaram a sua representação do seu pequeno mundo. Para eles a reserva era uma espécie de oásis celeste exemplarmente governado, embora minado por perpétuas e tenebrosas conspirações.
Depois chegou o inevitável tempo das purgas a adversários e a velhos aliados, que sulcou um fosso ainda mais profundo entre a pequena elite de animais que fruía do poder, dos meios de produção, dos rendimentos e mordomias da reserva e a maioria dos animais sem poder que trabalhavam arduamente e desse modo contribuíam para os proveitos materiais e espirituais da reserva.
Apesar do declínio evidente da reserva e das manifestas incapacidades e iniquidades do regedor, o ambiente de “paz podre” entranhou-se. O medo, a subserviência, a resignação, o pragmatismo, a inveja, a falta de criatividade e de habilidade, tudo isto tolhia os animais entretanto considerados menos iguais a darem o corpo e a alma a um manifesto viável que reivindicasse, pela via democrática, a deposição do regedor. Por sua vez, este, orgulhosamente só, aprendeu, com a experiência e a sua refinada intuição política, a eliminar os putativos sucessores, a silenciar todos os opositores, e, sempre no momento oportuno, a conquistar, sub-repticiamente, o apoio das turbas.
Até que, numa manhã resplandecente de Abril, o destino, sempre tão ardiloso, resolveu alterar este status quo e devolver a esperança a todos os animais da reserva – os quais voltaram a acreditar na possibilidade de resgatar o legítimo significado cívico da ancestral, jovial e promissora quinta dos tempos lendários da revolução.


Luís Torgal
(obrigado amigo!!)

21.9.09

[ELOGIO DO CRETINO]

Devo dizer que gosto de cretinos. Não, garanto que não é por piedade mas por apreço convicto. Talvez com uma pontinha de malícia mas sem acinte nem ferrete. Uma (como dizer?) maneira de tímida ternura.
Afinal – não é verdade? – o cretino é uma espécie humanóide altamente meritória e multifacetada: vive connosco à mão de semear, conhecemo-lo das ruas, vemo-lo na TV, lemo-lo nos jornais… Ele acompanhou sempre nos mais expressos lugares a rude humanidade desde o fundo dos tempos, desde os primórdios da vida. À roda da fogueira lá nas épocas longínquas do período quaternário quando ainda não havia cretinices modernas (televisão, rádio parlamento…) podeis crer que já havia, embora hirsuto um ou outro cretinus sapiens. E pelos tempos fora na idade dos ancestros da pré-história que seria dos inícios adequados da social organização sem um par de cretinos a adorná-la? Seja na arte ou na literatura nos ramos do saber que o mundo louva ou demais regras e ofícios como poderiam os cretinos dispensar-se? Cretino foi, ao acaso o tolo do Caim, ou o pobre do Job ou – na quadra das letras – o bom do Pinheiro Chagas que teve a parvoíce de ser contemporâneo do Eça magricelas. E nos domínios vicejantes da pintura o tremendo Bouguereau, que dizia de Cézanne que este só fazia borradelas. Ou nos salões do espírito sagrado magistral Bossuet, a águia de Mons que Deus tenha bem guardado. Enfim, nobres exemplos de douta cretinice. Pois o cretino é plural e em todo o lado sabe imiscuir-se. (Aqui um aparte para os estudiosos de gabinete: não deve confundir-se o propriamente cretino, cretinus boçalis, com o pedaço-de-asno que, sendo semelhante – a olhares sem estética – claramente pertence a outra espécie cinegética.) Na boa sociedade, naquilo a que se chama a melhor sociedade, a tal que se pauta por livros de etiqueta escritos em geral por excelentes senhoras – às vezes excelentes cretinas – o patarata é um valor seguro: já pensaram que seria das páginas sociais de afidalgados ou mesmo só de notáveis burgueses agregados sem um ror de cretinos e cretinas interessados em lhes saber da folha, em lhes saber dos fados? A vida sem cretinos é como um lar sem pão, teatro sem enredo, jardim sem flores ou passarinhos (olha que imagem cretina!), como dizem as poetisas de arrabalde com vaporosa graça quase divina. Numa recepção de Estado, no salão duma autarquia, numa cerimónia de homenagem a um que nada fez mas morreu tarde ou demasiado cedo, co’os diabos do talento seja na capital ou na feliz província a presença de cretinos é uma jóia sem preço: são os que convictamente mais aplaudem, sem maldade nem cálculo traiçoeiro ou gritam apoiado criando felicidade no elenco inteiro ou mais valia, nas forças vivas da cidade. (E em geral, por ironia do destino o orador habitual é que costuma ser, por sinal o maior cretino!)

Sim. Gosto de palonços. Ei-los que desfilam: na política, no professorado res publica (que, como se sabe, significa coisa pública – dou o esclarecimento não esteja algum cretino a ler-me) o palonço é fundamental. Quem diz palonço diz palonça (explico já não vá alguma feminista cretina pensar que o meu poema a discrimina).

Cretinice pura é algo de adorável como tudo o que é puro: um puro mel, um puro amor, uma pura doidice, uma pura miséria… Mas para que o cretino seja esplêndido necessita de ambiente a condizer: bons ares e boas águas, está claro mas também uma família recheada de atenções e de cuidados, ao velho estilo patriarcal, cultivando modelarmente os sãos e pacientes cretinos valores. Não precisa, todavia de ser fundamentalista praticante desses conceitos sem jaça: ele há tanto cretino oriundo de meios inconvencionais. Como o cacto, o cretino adapta-se a qualquer terreno, por mais adusto que seja! Façamos-lhe justiça: o cretino, digamos, é como um livro aberto – o que ali está não engana. Por isso tantos cretinos, por serem senhores graves e concentrados até chegam a ministros, a assessores, a deputados. (Também sucede que alguns no entanto nunca passam de criados…)
O cretino estimula as próprias artes, as próprias letras. Até a filosofia! Lembremos as expressões fenomenal cretino, cretino piramidal, cretino apimentado, cretino até dizer basta. Enfim, altos jogos verbais como tudo o que o humano engenho inventa. Já houve quem dissesse que ele é como as castanhas: nem sempre as maiores são as mais saborosas! Os cretinos rurais… Os cretinos citadinos… Os cretinos intermédios sociais, profissionais… Os viandantes cretinos… Enfim, não divaguemos!
Vou, então, terminar. Meter um ponto final antes que, impaciente o leitor inteligente me apode gentilmente de redundante ou, até, de chatarrão – espécie de parente maganão que também merece versos!

Nicolau Saião, in “Poemas Omnívoros”

14.6.09

[A EDUCAÇÃO DO MEU UMBIGO . LANÇAMENTO DO LIVRO DE PAULO GUINOTE]

No dia 17 de Junho, próxima 4ª feira, pelas 21 horas, vai decorrer o lançamento do livro do Paulo Guinote, na Bertrand, Dolce Vita - Coimbra.
Paulo Guinote é o professor que mais incomodou a Sra. Ministra da Educação com o seu blog "A Educação do Meu Umbigo" e que tem servido de apoio à luta dos professores, inclusivamente com o parecer jurídico de Garcia Pereira relativo ao actual modelo de avaliação de desempenho dos professores.
A apresentação do livro com o título igual ao do blog, será realizada por uma SENHORA que também incomodou bastante a mesma Ministra, essa mesma... Presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária Dona Maria - Coimbra, a PROFESSORA Rosário Gama.

23.1.09

[DIZER NÃO]


Colegas Professores, amigos, familiares...

Sobre a avaliação do desempenho dos professores não tenho falado muito nos últimos tempos. Tenho estado atenta. Atenta às atitudes, atenta a placards, cartazes e olhares. Observo. Entendo que… ou os professores lutaram até agora por convicção, por convicção que o ensino público tem de voltar a ter qualidade e disciplina, tem de melhorar e não ser uma farsa, que os professores têm de voltar a ter credibilidade, que as escolas têm de oferecer condições de trabalho a quem nelas trabalha… ou então andaram alguns numa atitude nada distraída mas sim oportunista a ver quem ía para a frente dos cornos do touro e agora com o caminho livre... hummm... há que lamber as botas… há que aspirar um lugar no céu e uma estátua à frente da escola com a pombas a.... Onde será a entrega do Óscar para o melhor professor?? Palavras leva-as o vento não é ??
Caríssimos!! Este é o momento de contarmos com todos, mas principalmente contarmos com cada um de nós, com a consciência de cada um de nós nesta batalha que a esperança há-de vencer. A dignidade pessoal e a honra não podem ser protegidas por outros. Devem ser zeladas pelo indivíduo em particular e já dizia alguém se cada um de nós agir sempre com dignidade, podemos não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na Terra um canalha a menos.

Não há muito mais a dizer, mas sim para actuar...
Deixo-vos um texto que reencontrei para partilhar, que gosto especialmente, convido-vos à reflexão…

"Dizer Não"

"Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo.

Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela.

Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos.

Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenanmo-nos em gado sob o comando de um pastor.

Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há-de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue.

Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal.

E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade. "

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'
Um abraço a todos,

20.11.08

[CEGUEIRA]

Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.
Padre António Vieira

12.5.08

[EU]

Eu, poema de Florbela Espanca


31.5.07

[PERIGOSAS DE TANTO LEREM...]

Perigosas, elas, as mulheres, porque lêem? Perigosas porquê? Porquê elas e não eles? O livro Mulheres Que Lêem São Perigosas (Quetzal/Círculo de Leitores) lança o debate. Autor: Stefan Bollmann, doutorado com uma tese sobre Thomas Mann. Prefácio: Elke Heidenreich, escritora e autora do programa televisivo Lesen!. Lançamento: amanhã, às 18.30, na Livraria Bertrand Picoas Plaza (Rua Tomás Ribeiro, 65) na mão de quatro mulheres apresentadas pela editora como "perigosas": Helena Vasconcelos, Maria João Seixas, Maria Teresa Horta e Paula Moura Pinheiro.O álbum reúne imagens de mulheres que lêem, vestidas ou nuas, meninas, jovens ou sem idade, sentadas, deitadas ou recostadas, absorvidas, apaixonadas ou seduzidas pelo poder mágico dos livros que acumulam, como escreveu Marguerite Yourcenar, "reservas contra os invernos do espírito", ou do talvez corpo, quando a vida se torna semelhante ao deserto e as palavras trazem consigo a presunção sublime da suspensão, ainda que por instantes, do peso entediante dos dias."Ler não é, afinal, diferente de existir", tal como diz Rui Magalhães em Infinito Singular/O não literário: "Podemos ler um texto, podemos ler um corpo: podemos viver um texto ou um corpo. Ler um corpo: recuperar, na visão incerta, a plenitude da fragmentação e da pluralidade."É essa dimensão da inseparabilidade entre vida e arte (ideia passível de aplicar-se também à escrita) que encontramos num esboço, de nenhuma forma exaustivo e nem sempre preciso, em Mulheres Que Lêem São Perigosas. Que ressalta, afinal, deste livro em que nos aproximamos da profunda intimidade da leitura, sem qualquer sentido de ameaça, como quem descobre o mistério de mundos outros? A revelação de que a beleza dir-se-ia representativa do triunfo da arte enquanto acto de paixão. Façamos então uma viagem por dentro do livro, uma viagem provocatória pela mão da feminista Elke Heidenreich, autora que tem o atrevimento de dizer: "Com o passar dos anos, os livros tornam- -se por vezes mais importantes do que os homens." Ou saltemos paras as páginas do ensaio, mais reflexivas portanto, e das legendas de Stefan Bollman, que considera a leitura intensiva "um desafio à liberdade criativa".Pinturas, desenhos, fotografias, imagens recolhidas ao longo do tempo, do séc. XIII ao séc. XXI, reflectem a relação entre as mulheres e os livros. Observe-se a Anunciação, de Simone Martini (1333) em que Maria - dominando a arte comum entre as mulheres cultas na Idade Média, a da leitura em silêncio - exprime desagrado, aconchegando o manto ao peito, quando o anjo, inoportuno, interrompe a sua leitura. Ou veja-se, mais tarde, no séc. XVII, apaziguada, a criada de costas viradas para o leitor, no quadro de Pieter Janssens Elinga. Libertando--se das incómodas socas, suas ou da dona da casa, e do peso ordenado das tarefas domésticas, entrega-se ao prazer do livro que a luz indirecta torna iluminante, enquanto se esquece, alheada, da fruteira, posta de parte em cima da cadeira.Mais adiante, Katie, cabelo lon- go e encrespado, devora, absorta e com paixão, a lenda sangrenta de S. Jorge, que luta com o dragão e o mata, tema impróprio no século XIX para raparigas. Sir Edward Burne Jones começou a pintar este quadro tinha a menina do desacer- to quatro anos e, quando o termi-nou, já havia completado os oito.Não falta, por outro lado, nestas páginas, a mulher, retratada por Ramón Casas Carbó, que cai exausta, no sofá, vinda do baile, de livro na mão, como se fosse possível fazer prolongar, naquele breve momento, o prazer de um corpo ainda em movimento de outros saberes/sabores da vida. A fotografia de Eve Arnold, exibindo Marilyn, ao tempo da rodagem de Os Inadaptados, lendo o Ulisses, revela a mulher na sua total fragilidade. Quando se encontraram, ela e a fotógrafa, a actriz já estaria a ler a obra de James Joyce. E assim foi captada pela máquina num flash luminoso que nega o estereótipo. Há, no entanto, que entender este belo volume à luz da breve história da leitura que nos é oferecida por Stefan Bollman. Lance-se, pois, um olhar rápido sobre a história da cultura e verifique-se o silêncio a que a mulher foi votada ao longo dos tempos, vedando-se-lhe o direito à instrução e ao trabalho, sem esquecer o texto áspero e divertido de Elke Heidenreich: "Quem lê fica a reflectir, quem reflecte forma uma opinião, quem tem uma opinião pode dissidir, quem se torna dissidente passa a ser inimigo." Só assim pode integrar, nesta obra, a designação "leitura perigosa", sobretudo a partir da evolução histórica, social, cultural.Bollman explica, por outro lado, que as mulheres que aprendiam a ler (referindo-se aos finais do século XVII) eram, na época, consideradas perigosas: "É que a mulher que lê adquire um espaço a que só ela e mais ninguém tem acesso", o que a leva a desenvolver um estado independente de auto-estima. Além disso, "cria a sua própria visão do mundo, não necessariamente correspondente à transmitida pela tradição, nem à dos homens". Claro que nada disto significa ainda a sua libertação da tutela patriarcal, "mas abre a porta que conduz à liberdade", comenta.Já no século XVIII, Mary Wollstonecraft, mãe de Mary Shelley (autora de Frankenstein) escrevia: "Não só a virtude, mas também o conhecimento devem ser iguais em natureza, e mesmo em grau." Nesse sentido, pode dizer-se que a mulher, usando a expressão de Ana Hatherly, foi tomando a palavra ao longo dos tempos. Usando os livros como aliados.Com eles, as mulheres deste livro amam, vivem vidas outras, a ficção e o sonho, o perigo e a paixão. Eles são o vício e a virtude, a sageza e o refúgio, caixa de ressonância da interioridade das suas fiéis leitoras.

26.5.07

[POEMAS QUE ARDEM EM GASOLINA E COMOÇÃO]

Nascido em 1978, Vasco Gato (VG) pertence àquela categoria de jovens poetas portugueses contemporâneos que acreditam, com uma fé inabalável, nas propriedades transcendentes da poesia. No extremo oposto da aproximação quase prosaica ao real, empreendida pelo campo dos auto-designados poetas "sem qualidades" (reunidos em torno do baudelairiano Manuel de Freitas), VG alinha com os autores que procuram, no acto de escrever versos, um meio de elevação que supere a banalidade quotidiana e se aproxime, com fulgores e prosódia, de uma certa ideia do sublime.

Após dois livros cheios de fragilidades - Um Mover de Mão (2000) e Imo (2003) -, A Prisão e Paixão de Egon Schiele (2005) mostrou que VG não só é bastante mais talentoso do que a maioria dos epígonos de Herberto Helder (o que não é difícil) como conseguiu moldar e depurar uma linguagem capaz de aliar, com inteligência e elegância, o ímpeto metafórico com uma certa narratividade.

É dessa linguagem, marcada pelo excesso e pela desmesura, que se fazem os versos de Omertà, um livro que é uma espécie de hino descarnado ao poder da poesia. Recorrendo a anáforas, inventários e enumerações, VG mergulha numa espécie de vórtice de imagens que procuram dinamitar a percepção comum do mundo. Mais do que a "construção de uma paisagem", o objectivo é criar a "ficção de um sobressalto", implicando-nos num estilhaçamento que nasce do embate do "poema-pedra" contra a realidade.

Nesta demanda de uma "vida transitiva, sem ensaios ou cosmética", há simultaneamente um efeito de intoxicação e de torpor. VG assume a poesia como algo que o corpo absorve e transforma, uma matéria que entra nas veias e se espalha à maneira dos vírus, um combustível que arde de "verso para verso", alimentado a "gasolina e comoção".

Valendo-se da facilidade com que cria metáforas, VG articula muito bem as suas imagens poderosas e viscerais, como quem lança relâmpagos capazes de iluminar a beleza mais secreta das coisas. O livro, contudo, ganharia em ser mais curto e depurado, porque há processos que se repetem em demasia e uma certa retórica lírica que se torna gratuita, previsível e algo cansativa.

Mais do que nos poemas breves e aforísticos ("Não se sai do abismo, aprende-se a sua linguagem"), é nos poemas longos que VG mostra o seu verdadeiro fôlego criativo e os fundamentos teóricos da sua estética, que passam por uma espécie de fusão com a própria escrita: "se um poema não tomou de assalto um homem, das duas uma: ou não era um poema, ou não era um homem". Ou ainda: "Todos os equívocos nascem da distinção entre poema e poeta. Como entre poema e leitor. Como entre poeta e leitor. Acordar é abrir um livro de poemas. Adormecer é abrir um outro livro de poemas."
José Mário Silva
in

13.5.07

[JOVENS CRIADORES 2007]

O Concurso Jovens Criadores 2007 está oficialmente aberto, os interessados poderão fazer o download do regulamento e ficha de inscrição.

Só se pode concorrer mesmo até aos 30 anos??!!

24.2.07

[ZECA AFONSO]

José Afonso nasceu a 2 de Agosto 1929 em Aveiro, morreu a 23 Fevereiro de 1987.

A 23 de Fevereiro de 1987, José Afonso deixou-nos, vítima de doença incurável.
Um dos mentores da canção de intervenção em Portugal e um baladeiro/compositor notável, soube conciliar a musica popular portuguesa e os temas tradicionais com a palavra de protesto.
Zeca trilhou, desde sempre, um percurso de coerência.
Na recusa permanente do caminho mais fácil, da acomodação, no combate ao fascismo salazarento, na denuncia dos oportunistas, dos "vampiros" que destroçaram Abril, no canto da cidade sem muros nem ameias, do socialismo, da "utopia".
Injustiçado por estar contra a corrente, morreu pobre e abandonado pelas institui coes.
"O Pintor Morreu..." mas, vinte anos depois não tenhamos dúvidas, a voz de Zeca perdurará... para sempre.